Compressão ou sem pressão? A qualidade das gravações nos dias de hoje.

Fonte: Blog de Ricardo Alexandre
Publicado em 19/08/2014

Estive na terça-feira (12/08) com os chapas e colegas André Barcinski e André Forastieri no debate “Música para ler”, no Museu da Imagem e do Som, falando sobre jornalismo musical, cultura rock, livros de música e sobre nossos próprios lançamentos. No momento em que abrimos para perguntas da plateia, uma rapaz levantou a mão e falou e pediu nossa opinião sobre a qualidade de som do rock atual em comparação com a produção dos anos 1970, objeto de estudo de Barcinski em seu novo livro Pavões Misteriosos (1974 – 1983: A explosão da música pop no Brasil) (Editora Três Estrelas). Segundo ele, a produção era mais bem cuidada há 30 anos, quando não havia a praticidade, a tecnologia e as facilidades de hoje. Os três concordamos.
Barcinski notou que “a economia determina tudo”, desde os incentivos fiscais que permitiram que Mazzola reunisse 62 músicos para gravar “Gita”, de Raul Seixas, até os orçamentos enxutos do rock brasileiro dos anos 80. Mas eu notei algo sobre o qual gostaria de me aprofundar um pouco hoje: a miniaturização dos aparelhos de som nos quais ouvimos música.

Os anos 1970 viviam sob a sombra do “som”. O Brasil, naturalmente, vivia os reflexos do milagre econômico, de uma multidão de campônios em contato pela primeira vez com aparelhos eletrônicos, mas todo o mundo buscava, a partir do estabelecimento do estéreo, soluções cada vez mais sofisticadas para ouvir música: o som “quadrofônico” no início da década, aos sistemas modulares, a euforia era tanta que até uma revista especializada em “som” surgiu: a Somtrês, precursora de toda a imprensa musical brasileira na década seguinte.

O paradigma era o da qualidade. Lembro lá em casa da celebração quase religiosa que foi a chegada do Gradiente System 125 com toca-discos, receiver AM-FM com equalizador integrado e tape deck, rack de madeira aglomerada revestida em cerejeira “e instalação extremamente simples”. O som do álbum Double Fantasy, de John Lennon, com sua produção (excessivamente, o tempo provaria) brilhante era como se nos transportássemos para um outro ponto da evolução da relação entre arte e público. Nós estávamos dentro da música – muito mais quando descobrimos os headphones, mas aí é outro papo.

O fato é que desde os anos 1980, com a invenção dos microsystems e dos três-em-um, depois os sistemas portáteis, que a praticidade tem vencido a qualidade de goleada. Com a invenção do CD, então, nós pudemos ouvir nossos discos no carro, na mochila (com os mini-discs) e rompeu-se a barreira que nos fazia acreditar na música como algo sagrado.

O MP3 é só o mais recente capítulo de uma novela que a indústria eletrônica (dona, não custa lembrar, da maior parte das gravadoras) nos ensina há anos: importa mais a praticidade que a qualidade. Foi por isso que, lá nos anos 1980, Frank Zappa atacava o compact-disc, dizendo que, uma vez digitalizada, não fazia sentido que a música voltasse a um suporte físico. Ele não imaginava o quão dolorosamente certo estava.

Como falamos no debate do MIS, os meios de comunicação sempre determinaram o som de sua época. Foi assim com o rádio AM, com a ascensão do FM, com os boombox e, mais recentemente, com o Youtube, o iTunes e os sistemas de compartilhamento de música. Ou melhor, de compartilhamento de “arquivos”.

Se você considerar 2000 como o ano da virada (por causa do Napster), ainda que a indústria fonográfica não houvesse entendido, a produção artística assimilou rapidamente: Jack Johnson, Norah Jones, Coldplay, KT Tunstall, Corinna Bailey Rae e muitos outros perceberam que, para ouvir no celular ou nas caixinhas do notebook, o melhor eram músicas simples, com instrumental esparso, com melodias bem demarcadas e sem grandes tapeçarias sonoras.

62 músicos no estúdio não é apenas economicamente desinteressante. É também produzir massa sonora demais, e ruído demais que não será percebido por uma geração apressada e voraz.

A Harman, empresa de áudio do mundo dona da AKG, JBL e muitas outras marcas, bancou o interessante documentário The Distortion Sound (abaixo, em inglês), com depoimentos de gente como Slash, Quincy Jones, Neil Strauss, Mike Shinoda. O filme é quase um Uma Verdade Inconveniente a respeito do barateamento da música gravada. Em certo momento, um especialista defende que 90% da complexidade do áudio é perdida na compressão para MP3. Não deixa de ser curioso imaginar que é neste mundo que o Pink Floyd lançará Endless River, álbum de música “ambient e instrumental” inédito composto e gravado principalmente em 1994. Vamos ver que bicho dá.

Não tem nada a ver com arte – esta sobreviveria mesmo dentro das cavernas sem sistema de sons ou mesmo instrumentos musicais. Tem a ver com o registro da música que amamos, e com o futuro que reserva a ele um papel cada vez mais indigno.